CALI na Backstage Digital | Ed. 74

Entre a superfície do prazer e as camadas mais profundas do autoconhecimento, CALI apresenta “TRAMA”, seu álbum de estreia, como um gesto de coragem, escuta interna e afirmação de identidade. Natural de Porto Ferreira (SP), a cantora e compositora constrói um trabalho que nasce do corpo, da intuição e de processos emocionais vividos ao longo dos últimos anos, consolidando um percurso artístico iniciado em 2017 e apresentando ao público um pop autoral que ela define como “pop brasuca”.

Com timbres urbanos, texturas eletrônicas e fortes influências latino-americanas, “TRAMA” costura sensualidade, desejo, ancestralidade e poder feminino em um mesmo tecido sonoro. Dividido entre faixas mais dançantes e outras de caráter íntimo e reflexivo, o disco revela uma artista madura, disposta a falar sobre liberdade, laços e nós que formam quem somos. Em entrevista exclusiva à Backstage Mag, CALI fala sobre o processo criativo do álbum, suas referências e os desafios emocionais deste projeto.

Confira:

Backstage: Qual a principal mensagem que você quis abordar ao longo deste álbum? E como foi equilibrar essas temáticas, de desejo e sensualidade ao autoconhecimento e à ancestralidade, em um só trabalho?

CALI: Ao longo do álbum, reafirmo a importância da liberdade pra mim — artística, pessoal, na forma como vivo, me sinto e me expresso — além de colocar as relações, a trama de pessoas e crenças que nos cercam, como peças valiosas no processo de individuação e autoconhecimento.
Equilibrar essas temáticas foi, na verdade, libertador e natural. Senti que coloquei tudo de mim no disco, tudo que tive vontade, de forma intuitiva e sincera.

Créditos: Luiza Meneghetti

B: O nome TRAMA carrega a ideia de laços, nós e histórias pessoais. Como chegou nesse nome e que tipo de “nó” você sentiu que precisava encarar ou desatar durante esse processo?

C: Cheguei nesse nome depois de compor a faixa “Trama”. Durante a terapia, me deparei com esse termo para falar dessas relações que nos sustentam. Também li um livro sobre o tema que me tocou muito, chamado “Laços e nós: amor e intimidade nas relações humanas”, da Beatriz Cardella.
Durante a construção do álbum, ficou evidente pra mim como a minha ancestralidade, os laços e os nós que herdo dela fazem parte de quem eu sou e me dão forças e coragem pra seguir meu sonho.

B: Você define o som do álbum como um “pop brasuca”, com timbres urbanos, eletrônicos e influências latino-americanas. Quais foram suas principais referências para essa construção?

C: Me inspiro tanto em artistas nacionais quanto internacionais. Minhas referências vão de Rita Lee, Gal Costa, Marina Sena e Luísa Sonza — que, pra mim, são expoentes de diferentes tipos de pop brasuca — à Rosalía, Kali Uchis, Ariana Grande e Frank Ocean, que trazem uma veia pop muito forte, com timbres eletrônicos e urbanos.

B: A latinidade aparece no álbum também como uma linguagem afetiva e política. De que forma essa escolha atravessa sua identidade como artista?

C: Cresci numa cidade pequena e conservadora do interior de São Paulo, onde você pode — e vai — ser julgada por sair um pouquinho da curva. A latinidade é essa força que me faz sair da curva, transformando a sensualidade e a expressão artística em potência, e não em algo do qual eu deva me envergonhar.
Isso atravessa minha identidade quando falo sobre desejo, crenças, ancestralidade e sonhos sem medo.

Créditos: Luiza Meneghetti

B: Teve alguma faixa especialmente difícil de finalizar, emocionalmente ou musicalmente?

C: Sim! “Lado Ruim” foi a mais desafiadora musicalmente. É a primeira música que lanço sem base eletrônica. Ela é minimalista, íntima, delicada, e exigiu uma atenção enorme aos vocais e ao instrumental. Gravamos duas versões, e depois de ouvir bastante, escolhi a mais simples, só com a guitarra do Enio. Era também a favorita do produtor do disco, Kafé, e a mais diferenciada em termos de arranjo.

B: “BAILE”, faixa foco do disco, sintetiza bem o espírito do álbum e ainda traz Kafé como feat. O que essa música representa dentro da narrativa de TRAMA?

C: “Baile” representa algo essencial pra minha arte e pra minha vida: a autenticidade na forma de viver relações com os outros e comigo mesma. Eu falo do que gosto, de como gosto, não tenho medo de dizer que sinto saudade. Também é importante pra mim me sentir sexy pra me sentir forte. Sabe aquela roupa que você veste e se sente mais você? “Baile” é essa roupa pra mim — e pra narrativa de TRAMA.

Ouça TRAMA:

B: Canções como “BAIXARIA”, “MANIA” e “EMOCIONADA” falam abertamente sobre prazer e sexualidade. Isso ainda é um desafio para mulheres na música pop?

C: No começo foi, sim. Acabo expondo minha vida pessoal e sempre tem gente que torce o nariz, acha uma baixaria (risos). Hoje é um prazer poder falar sobre isso abertamente. Antes, a gente não tinha esse direito. Agora que temos, não posso permitir que nenhum careta me faça sentir mal por falar de um sentimento universal. Vejo como empoderamento mesmo.

B: O público pode esperar clipes ou visualizers? Esse material dialoga com a narrativa emocional do álbum?

C: Com certeza. TRAMA é um universo completo, com cores, tons, palavras e situações muito específicas. Tudo isso vai ser reforçado no material visual que preparamos como extensão da narrativa do disco.

B: Para quem está dando play no álbum agora, o que você espera que fique depois da última faixa?

C: A alegria de estar vivo e a vontade de ouvir de novo!

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