Capim Cósmico na Backstage Digital | Ed. 88

Na contramão de um mercado musical saturado de produções ultra-polidas, fórmulas de engajamento e filtros de inteligência artificial, o projeto Capim Cósmico, idealizado pelo músico e compositor Mateus Cursino, resgata a urgência do espírito do it yourself (DIY). Seu novo álbum, “Ruído Colateral Crônico”, chega a todos os aplicativos de música no dia 24 de julho, lançado pela Marã Música. O trabalho surge não de um plano de marketing, mas de uma necessidade visceral de vazão emocional após o diagnóstico de diabetes tipo 2. O estúdio tornou-se um refúgio de fúria e libertação, onde o artista assumiu praticamente todos os instrumentos para transformar a vulnerabilidade em som. Faça já o pré-save!

O resultado é uma obra crua, que transita entre o rock alternativo, a psicodelia e a crueza do punk. Ao abraçar as imperfeições e abrir mão da busca obsessiva pelo algoritmo perfeito, Mateus entrega um registro honesto sobre as fragilidades humanas, a saúde mental e a complexa relação de dependência com a própria arte. O disco funciona como a fotografia analógica de um período sombrio, mas que carrega em si a promessa de um encerramento necessário para que novos ciclos floresçam.

Na entrevista a seguir, Mateus Cursino abre o jogo sobre o processo quase tóxico de imersão criativa que deu vida ao álbum, reflete sobre os rumos da cena independente brasileira e revela como este “inverno” pessoal abre caminhos para uma primavera musical mais iluminada e nostálgica. Confira:

“Ruído Colateral Crônico” nasceu em um momento de ruptura e acabou se transformando em um processo de libertação. Olhando hoje para o disco pronto, o que ele te ensinou sobre fragilidade, autocuidado e a maneira como você se relaciona com a música?

A minha relação com a musica é um tanto quanto tóxica. Muitas vezes, a música toma completamente o meu cotidiano e os meus afazeres semanais. A feitura do disco deixa isso mto bem claro. O meu autocuidado talvez não tenha se manifestado de fato nos modos e na minha alimentação num primeiro momento. Ao contrário, eu mergulhei no disco para que eu pudesse me expressar. Fiquei uma semana fazendo musica sem me lembrar que o essencial era o autocuidado com a alimentação e hábitos saudáveis como atividades físicas.

Você gravou praticamente todos os instrumentos do álbum e abraçou as imperfeições como parte da identidade do trabalho. Em uma época de produções cada vez mais polidas, o que existe de mais punk e mais humano em assumir esse caráter cru e sem filtros?

Eu vejo muita gente procurando a perfeição nas produções, ainda mais com o surgimento de ferramentas de inteligência artificial. Eu tentei ir na contramão disso tudo, produzindo da maneira mais orgânica possível. Toquei os instrumentos, principalmente a bateria, da maneira mais crua e simplificada possível. Acho que a ideia era essa mesmo, de ir na contramão do que tem sido feito atualmente e produzir algo que inspirasse outras pessoas a fazerem o mesmo.

Ao longo da sua trajetória, seja com o Capim Cósmico, Velhos Aspargos ou outros projetos, como você enxerga a cena independente brasileira hoje? Ainda existe espaço para discos feitos com urgência criativa e espírito DIY, ou tudo ficou mais voltado para algoritmos e fórmulas?

Hoje eu vejo muito menos espaço para trabalhos como esse, em que o que se pesa é realmente a produção orgânica e crua. Tudo é feito para viralizar, para criar seguidores e o algoritmo trabalhar ao seu favor. O meu trabalho não busca nada disso, pelo contrário. É uma maneira apenas de me expressar, sem sentir nenhuma necessidade de viralizar. Por isso, a crueza e a produção simples e o mais próximo possível do espírito do it yourself.

Você descreve “Ruído Colateral Crônico” como o encerramento de um ciclo. Se este álbum representa uma fotografia de um período mais sombrio e introspectivo, que tipo de paisagens, temas e sentimentos você imagina explorar no próximo capítulo do Capim Cósmico?

Para os próximos capítulos, quero buscar algo mais nostálgico, algo que me lembre as montanhas de Minas Gerais, a psicodelia unida pela ideia bucólica de paisagens verdes e momentos. Um retrato menos sombrio e mais iluminado, de fato. Como se saíssemos de um longo e tenebroso inverno, e entrássemos na primavera do sol iluminando os morros de Minas Gerais.

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