De piloto de avião a influenciador e empresário, ele transforma mudanças de rota em projetos, marcas e novas possibilidades
Aos 26 anos, Pedro Ramalho – que estampa a nova capa digital da Backstage Mag – já descobriu que sua trajetória dificilmente caberia em uma única definição profissional. Piloto de avião, empresário, influenciador e criador de conteúdo, ele passou por universos distintos até encontrar uma forma própria de conectar negócios, criatividade e comunicação. Hoje, é especialmente conhecido pela relação com o The Eye Motel e pelo fenômeno dos “Motelovers”, mas faz questão de deixar claro que o empreendimento é apenas um dos capítulos de uma história que continua sendo escrita.
A experiência acumulada ao longo dos anos ajudou a moldar a maneira como Pedro enxerga o trabalho e, principalmente, o empreendedorismo. A aviação trouxe disciplina, responsabilidade e capacidade de tomar decisões; a moda ampliou seu olhar para imagem e estética; os negócios ensinaram sobre riscos, pessoas, dinheiro e execução; e a internet acrescentou uma habilidade que ele considera essencial: saber ouvir. Mais do que seguir uma carreira linear, Pedro escolheu transformar cada experiência em repertório para a próxima etapa.
Essa inquietação também aparece na maneira como conduz o The Eye. Em vez de apresentar apenas o resultado pronto, ele abriu as portas dos bastidores e transformou reformas, imprevistos, decisões e desafios empresariais em narrativa. O que poderia ser apenas o processo de transformação de um empreendimento tornou-se uma história acompanhada pelo público. A partir daí, o empresário passou a construir algo que considera ainda mais importante do que números de audiência: uma comunidade capaz de se reconhecer e participar daquela trajetória.
Por trás do personagem que brinca que “dono de motel não tem um minuto de paz”, existe um empresário que começa a pensar cada vez mais em legado. Pedro quer levar o The Eye para além do conceito tradicional de motel, desenvolver a Motelovers como uma marca de lifestyle, explorar música, audiovisual, produtos e experiências e, no futuro, criar negócios que tenham identidade própria. Sua maior ambição, porém, parece estar justamente na liberdade de não precisar escolher um único caminho. Pedro Ramalho não quer ser definido por aquilo que já construiu, mas pela curiosidade sobre o que ainda será capaz de criar.
Confira a entrevista completa:
Quando as pessoas pensam em Pedro Ramalho hoje, muitas associam imediatamente seu nome ao The Eye Motel. Quem é o Pedro que existe por trás desse projeto?
Eu gostaria que a matéria apresentasse principalmente o Pedro que existe por trás dos projetos. Hoje, muitas pessoas me conhecem como “o dono do motel”, por causa da repercussão do The Eye e dos conteúdos nas redes sociais. Eu me divirto com isso e tenho muito orgulho do que estamos construindo, mas essa é apenas uma parte de uma trajetória que passou por universos completamente diferentes.
Já trabalhei com aviação, moda, empreendedorismo e hoje também com criação de conteúdo. À primeira vista, parecem caminhos desconectados. Com o tempo, percebi que cada um deles construiu uma parte de mim.
A aviação me ensinou disciplina, responsabilidade e tomada de decisão. A moda desenvolveu meu olhar para imagem e estética. O empreendedorismo me ensinou sobre risco, pessoas, dinheiro e execução. E a internet me ensinou algo que considero fundamental: ouvir.
Sou uma pessoa muito inquieta. Tenho dificuldade em simplesmente aceitar que alguma coisa precisa continuar sendo feita da mesma maneira porque “sempre foi assim”. Gosto de questionar, criar, experimentar e transformar ideias em coisas reais. Sou empresário, influenciador e storyteller, mas, antes de qualquer título, sou alguém movido por curiosidade e por vontade de construir. O motel é um dos capítulos mais conhecidos dessa história, mas definitivamente não pretendo que seja o último.

Você teve uma trajetória profissional pouco convencional. Como enxerga o momento que está vivendo hoje?
Estou vivendo uma fase de muita construção, mas também de descoberta. Nos últimos anos, minha vida profissional deixou de seguir aquela lógica tradicional de escolher uma carreira e permanecer nela para sempre. Hoje consigo perceber que não preciso escolher entre ser empresário, criador de conteúdo ou desenvolver projetos artísticos. Essas coisas podem coexistir.
A maior mudança talvez tenha acontecido na minha própria definição de sucesso. Já pensei muito em sucesso como chegar a determinado cargo, atingir determinado resultado financeiro ou construir determinado negócio. Continuo sendo extremamente ambicioso, mas hoje penso também em legado, relevância e liberdade.
Quero construir coisas que tenham identidade. Daqui para frente, quero criar empresas, marcas, projetos audiovisuais, música, produtos e experiências. Quero poder olhar para trás daqui a dez ou vinte anos e perceber que construí coisas diferentes, mas que todas carregavam uma identidade muito clara. Não quero que as pessoas saibam exatamente o que vou fazer depois. Quero que tenham curiosidade para descobrir.
Existe uma imagem que você gostaria de fortalecer perante o público?
Existe uma coisa que valorizo muito: autenticidade. Profissionalmente, gostaria de ser reconhecido como um empresário criativo, alguém capaz de pegar um negócio tradicional, olhar por outro ângulo e encontrar novas possibilidades.
Não quero ser visto simplesmente como “um influenciador que tem um motel”, nem apenas como “um empresário que faz vídeos”. Existe estratégia por trás do conteúdo e existe entretenimento por trás do negócio. É justamente a combinação dessas duas coisas que considero interessante.
Também não quero construir aquela imagem antiga de empresário excessivamente sério, inacessível e que parece ter resposta para tudo. Eu erro, mudo de ideia, uma obra atrasa, alguma coisa quebra e uma decisão que parecia maravilhosa às vezes se mostra péssima. Muitas vezes eu mostro isso.
Foi justamente dessa realidade que surgiu uma frase que acabou virando um dos meus bordões: “dono de motel não tem um minuto de paz”. É engraçada, mas representa uma verdade sobre empreender que raramente aparece quando vemos apenas o resultado final de um negócio. Quero fortalecer a imagem de alguém ambicioso e profissional, mas também acessível, bem-humorado e humano.

O que significa empreender para você hoje e como transforma grandes sonhos em algo concreto?
Tenho sonhos grandes — alguns deles provavelmente maiores do que aquilo que consigo executar hoje. Quero transformar o The Eye em uma marca que ultrapasse a definição tradicional de motel e seja reconhecida por experiência, criatividade, design e entretenimento.
Também vejo um potencial enorme na Motelovers. Ela nasceu da relação com o público, mas acredito que pode evoluir para uma marca de lifestyle com identidade própria, envolvendo conteúdo, moda, produtos, experiências, benefícios, parcerias e uma comunidade cada vez maior.
A música também entrou na minha vida de uma maneira que eu não esperava. Estamos desenvolvendo um álbum com músicas inspiradas nas suítes do motel, e isso abriu minha cabeça para possibilidades envolvendo música, audiovisual e entretenimento.
Tenho uma regra muito simples: sonho precisa virar agenda. Se quero que alguma coisa exista, em algum momento ela precisa virar reunião, orçamento, planejamento, gravação, obra, contrato, tentativa, erro e correção. A parte bonita normalmente aparece na internet. A construção acontece quando ninguém está olhando.
A família também aparece em sua história e nos seus conteúdos. Qual é o papel dela na sua vida?
Minha família é uma parte muito importante da minha vida e acabou entrando naturalmente também nos projetos. Talvez o exemplo mais visível seja minha avó. A participação dela nos conteúdos começou de maneira absolutamente espontânea e o público criou uma relação muito especial com ela. O que mais gosto nisso é justamente o fato de não existir um personagem elaborado. É a personalidade dela, a nossa relação e as situações acontecendo naturalmente.
Minha família também funciona como uma espécie de ponto de equilíbrio. Quando você empreende e, ao mesmo tempo, trabalha com internet, é muito fácil permitir que tudo vire trabalho. Sempre existe mais uma mensagem, uma obra, um problema, uma reunião ou um vídeo para gravar.
Ter perto de mim pessoas que me conheciam antes dos seguidores, antes das visualizações e antes dos negócios ajuda a colocar as coisas em perspectiva. Eles não tomam minhas decisões profissionais por mim. Eu assumo essa responsabilidade. Mas influenciam muito os valores com os quais tomo essas decisões. No fim das contas, negócios são importantes, mas quero construir uma vida da qual também tenha orgulho fora deles.
Você já passou por momentos em que precisou recomeçar. O que aprendeu com essas mudanças de rota?
Mais de uma vez. Minha trajetória profissional teve mudanças importantes e, quando você muda de direção, existe sempre um período desconfortável em que aquilo que você dominava fica para trás e você volta a ser iniciante. Isso exige humildade.
O próprio The Eye foi um grande exercício de incerteza. Comprar um motel, decidir transformá-lo profundamente e ainda expor todo esse processo nas redes sociais significou colocar decisões, erros e acertos diante de milhares de pessoas. No início existe uma tendência de querer mostrar apenas aquilo que deu certo. Com o tempo, percebi que as pessoas se conectavam justamente com a verdade do processo.
Isso me ensinou a não ter apego excessivo às minhas próprias ideias. Hoje consigo dizer com muito mais facilidade: “Eu estava errado. Vamos fazer diferente”. Para mim, isso é uma evolução enorme. E talvez a maior lição de todos esses recomeços seja uma frase na qual acredito muito: recomeçar não significa voltar ao zero. Quando você começa novamente, leva disciplina, experiência, relacionamentos, erros e aprendizados de tudo aquilo que viveu antes. Você não volta para o começo. Você começa de outro lugar.

O The Eye acabou se transformando em muito mais do que um empreendimento. O que esse projeto representa para você?
O The Eye representa muito essa mentalidade de não aceitar que as coisas precisam continuar sendo feitas da mesma maneira porque “sempre foi assim”. Meu interesse nunca foi simplesmente administrar um motel. Quero entender até onde podemos levar esse conceito através de arquitetura, branding, música, entretenimento, tecnologia, conteúdo e experiências.
Quando comecei a mostrar os bastidores, percebi que existia um interesse muito grande das pessoas não apenas pelo resultado, mas pelo processo. Elas queriam acompanhar a construção, os problemas, as decisões e até os erros.
Hoje, quando alguém me encontra e diz que acompanha o Diário de Reforma, pergunta sobre determinada suíte ou conta que acompanha os vídeos com a família, percebo que aquilo ultrapassou o conteúdo. Virou uma história coletiva.
O fenômeno dos “Motelovers” mudou sua relação com o público?
Com certeza. Tenho muito orgulho de ter criado uma relação verdadeira com as pessoas. Quando alguém brinca que “dono de motel não tem um minuto de paz”, pergunta sobre uma reforma ou se interessa por alguma novidade, percebo que existe uma identificação que vai além de simplesmente assistir a um vídeo. O que me interessa é justamente transformar audiência em comunidade. Um vídeo pode atingir milhões de pessoas e ser esquecido alguns dias depois. Eu não quero construir apenas viralização. Quero construir relevância.
A Motelovers nasceu dessa relação com o público e acredito que pode ganhar uma identidade própria. Pode envolver conteúdo, moda, produtos, experiências, benefícios, parcerias e uma comunidade cada vez maior. Acho muito interessante quando as pessoas deixam de ser apenas espectadoras e passam a se sentir parte daquilo que está sendo construído.
Quando olha para tudo o que já construiu, do que sente mais orgulho e qual é o principal desafio agora?
Eu poderia responder falando de números, negócios ou projetos, mas o que mais me dá orgulho hoje é perceber que conseguimos criar uma relação verdadeira com as pessoas. Tenho orgulho também de ter tido coragem para mudar de caminho algumas vezes. Existe segurança em permanecer naquilo que você já domina. Começar algo novo significa aceitar novamente não saber tudo. Meu maior desafio agora é transformar toda essa atenção em algo duradouro. Não quero construir apenas viralização. Quero construir relevância. Quero transformar audiência em comunidade, comunidade em marcas e marcas em negócios capazes de existir independentemente de um algoritmo. Acredito que esse seja o próximo grande capítulo.
Depois de tantas mudanças de rota, onde Pedro Ramalho quer chegar?
O The Eye continua evoluindo. A Motelovers começa a ganhar vida própria. A música abre um novo território. Meu trabalho como criador está crescendo e existem outros projetos sendo imaginados. Quero construir outras empresas. Quero desenvolver novas marcas. Quero criar projetos que hoje talvez nem consiga imaginar. Tenho orgulho de tudo que já aconteceu, mas ainda existe uma sensação muito forte dentro de mim: eu não cheguei lá. Eu estou começando. E talvez seja justamente isso que mais me motiva.






























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