Destaque absoluto e capa da edição 90 da Backstage Mag, a cantora e compositora Natasha Hoffmann marca uma virada incisiva em sua trajetória com o lançamento do seu novo EP, “Não me Comove”. O projeto surge como uma resposta direta e necessária ao esgotamento diante da indústria musical e às estruturas machistas que ainda cruzam o caminho de mulheres no meio artístico.
Inspirada na essência da célebre frase eternizada por Dona Ivone Lara – “não me comove o pranto de quem é ruim” -, Natasha não se curva. O EP transforma sentimentos densos como revolta, frustração e dor em um manifesto sonoro corajoso, unindo faixas como a visceral “NARRATIVA!” à sensível e cortante “meu objeto”, que amplia o debate para além do mercado da música e mira na objetificação feminina.
Sonoramente, o trabalho reflete essa coragem ao costurar uma identidade própria em um caldeirão de influências ecléticas – navegando com naturalidade entre a sofisticação da MPB de Gal Costa, a atitude do rap de Ebony, o pop-rock de Olivia Rodrigo e a energia do Red Hot Chili Peppers. É um trabalho maduro e catártico, produzido ao lado de Raphael Dieguez, feito para incomodar e, acima de tudo, acolher.
Confira agora uma entrevista na íntegra, onde a artista detalha os bastidores dessa produção, o processo de botar a cara a tapa e como transformou a própria dor em um abrigo para outras mulheres independentes. Leia:
“Não me Comove” nasceu de um sentimento de exaustão diante da indústria musical. Em que momento você percebeu que esse cansaço precisava deixar de ser apenas uma experiência pessoal para se transformar em um manifesto artístico?
Acho que a virada de chave foi quando eu comecei a receber uma onda de comentários machistas e nojentos em 2024. Apesar de ser muito engajada em questões políticas/sociais, eu nunca tinha me dedicado a um projeto que realmente tocasse nesse assunto e percebi que estava na hora de lançar um EP que expusesse o lado misógino do meio musical – até porque sabia que não era, de forma alguma, uma experiência individual.
O EP parte de questões ligadas ao mercado da música, mas termina ampliando o debate para o machismo estrutural em “meu objeto”. Como você enxerga a relação entre essas duas narrativas e por que era importante conectá-las dentro do mesmo projeto?
O machismo no meio musical – e em qualquer meio – vem da estrutura do patriarcado. Eu quis unir as duas músicas em um mesmo projeto porque “NARRATIVA!” fala só da pontinha do iceberg — já “meu objeto”, toca mais na raiz desse problema, fala sobre o sentimento de poder, de superioridade que muitos homens têm em relação às mulheres. “meu objeto” é bem mais complexa, aborda assuntos bem mais sensíveis e eu acho importante expor os problemas que eu exploro na música, mesmo que isso incomode muitos. O “causar incômodo” é outro motivo do porquê quis unir essas músicas em um projeto só — “não me comove” é meu trabalho mais ousado até agora; eu sabia que para fazer ele da maneira certa, eu não podia ter medo de críticas, da recepção; eu precisava botar a cara a tapa.

Musicalmente, você reúne referências que vão de Gal Costa e MPB ao rap de Ebony, ao pop-rock de Olivia Rodrigo e aos Red Hot Chili Peppers. Como foi encontrar uma identidade própria em meio a influências tão diversas, sem que nenhuma delas apagasse a sua voz?
Honestamente, não acho que tenha sido muito difícil; eu sempre tive um gosto musical bem eclético e tendo a focar mais nas letras/mensagem que a música quer passar do que no gênero musical. Acho essencial que todo artista busque escutar músicas fora do seu nicho, até porque essa é uma ótima maneira de entender o que você quer para o seu som e o que você não quer. Sei que isso pode soar um pouco contraintuitivo, mas acredito que a única maneira de construir um som bom e autêntico é tendo referências.
Depois de transformar frustração, revolta e vulnerabilidade em um trabalho tão pessoal, o que você espera que “Não me Comove” provoque em quem escutar o EP, especialmente em outras mulheres e artistas independentes que possam se reconhecer nessas histórias?
Espero que esse projeto faça com que outras mulheres se sintam acolhidas e também que as encoraje a expor situações de preconceito – qualquer forma de preconceito – que já vivenciaram. É muito comum para nós, normalizar situações machistas, “abstrair” e seguir em frente como se não fosse nada demais. Acredito que, com esse EP, eu esteja fazendo justamente o movimento contrário e também é um convite para que outras mulheres façam o mesmo: não normalizem, não abaixem a cabeça, encontrem formas de denunciar o patriarcado, mesmo que de uma maneira mais indireta.





























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