Da Cruz na Backstage Digital | Ed. 73

 A banda da afro-brasileira Mariana Da Cruz, que mora em Berna, está criando um novo gênero no mundo da música. Da Cruz explora suas raízes africanas e brasileiras de forma musical no novo álbum “Som Sistema”. Mas ela não faz isso voltando às tradições musicais, e sim com base nos mais recentes desenvolvimentos da música negra moderna. O trabalho com onze faixas já está disponível nas plataformas digitais. 

O espectro vai do Amapiano sul-africano ao Baile Funk brasileiro, passando pelo Shatta caribenho e vários estilos de nova música africana de boate. Há traços do Kuduro angolano ou do Trap brasileiro. A partir desses elementos, Da Cruz criou uma música brasileira autônoma e contemporânea, com caráter de canção e mensagem marcante. Conversamos com a artista sobre esse novo álbum.

Confira a entrevista completa:

Backstage: “Som Sistema” parece um manifesto. Quando vocês perceberam que esse álbum tinha criado uma linguagem própria, quase um novo gênero?

Da Cruz: Na verdade, a gente tinha uma meta que a gente mesmo criou pra esse álbum. Queríamos explorar minhas raízes afro-brasileiras de um jeito musical. Viajamos bastante, fomos às Ilhas de Cabo Verde, à África do Sul, à Burkina Faso, e o objetivo era descobrir onde eu me sentia musicalmente em casa. Depois, traduzimos esses elementos pro nosso dialeto musical. E disso surgiu uma música que realmente ficou muito original. É sempre engraçado quando a gente tem que registrar nossas músicas nos serviços de streaming. É preciso fazer uma autoavaliação estilística. E, todas as vezes, não conseguimos pensar em nenhum estilo musical que corresponda totalmente ao Da Cruz. 

B: O álbum mistura amapiano, baile funk, shatta, kuduro, trap e outros ritmos da música negra global. Como foi combinar essas referências sem cair na nostalgia ou no rótulo de “música tradicional”?

DC: Esse risco não existia, porque a gente não queria se orientar pela música tradicional. Na minha opinião, o shatta ou o amapiano estão entre as novas vertentes mais empolgantes da música eletrônica negra. Ok, o kuduro estava na moda quando eu me mudei para Lisboa, há 25 anos. Ele ainda soa moderno, mas aqui a gente poderia dizer que há uma certa nostalgia.

B: Você mora em Berna, mas o álbum é repleto de temas brasileiros e africanos. Como essa experiência na diáspora influencia a maneira como você compõe, escreve e produz hoje?

DC: Isso quase não afeta a produção – hoje em dia, trabalha-se com os mesmos programas em todo o mundo. Mas influencia a forma como vejo meu país natal e minhas raízes. A distância e as novas experiências abrem uma perspectiva diferente sobre os acontecimentos. Uma polarização política e social tão extrema como a que temos visto nos últimos anos no Brasil seria inimaginável na Suíça. E me doeu muito ver a sociedade se dividindo. Na Suíça, não há um presidente que possa governar um país por quatro anos e, na pior das hipóteses, levá-lo à ruína. Existem sete presidentes, provenientes de quatro partidos diferentes. Tudo se baseia em compromissos e é um pouco demorado. Mas há estabilidade e o povo tem voz em todas as decisões. Isso se chama democracia direta. Eu gostaria que todas as democracias do mundo tivessem um sistema assim. Assim, seria quase impossível que alguns malucos pudessem virar o mundo de cabeça para baixo.  

B: As letras falam sobre colonialismo, disputas por terras, tensões sociais, mas também sobre amor e redenção. Como um tema tão pesado se encaixa com música que é feita pra pista de dança e pro corpo?

DC: Nunca entendi a ideia de que música pra dançar tem que ser automaticamente trivial e superficial. Sempre teve música de boate inteligente e inspiradora. Penso em uma banda como Moloko e sua cantora Roisin Murphy. Ou também todo o afrobeat da Nigéria dos anos 70 e 80, que era muito político e, ao mesmo tempo, dançante pra caramba.

B: Os singles estão tocando em importantes estações de rádio em todo o mundo. O que mais te surpreendeu na recepção internacional deste trabalho e na interpretação das músicas pelo público?

DC: Para ser sincero, nunca imaginei que nosso novo álbum teria grandes chances de tocar nas rádios do mundo. É um álbum que foi feito pra tocar nas boates e nos festivais. Por isso, estou ainda mais surpreso com a boa recepção que está tendo. A música “Chata” acaba de ser eleita a música da semana pela Byte.fm, uma emissora alemã que a gente curte muito. Uma emissora especializada em música indie e que não é conhecida por tocar música brasileira regularmente. Também estamos tocando regularmente nas rádios americanas, e esta semana fomos convidados para uma sessão ao vivo na KEXP. Mas, no momento, infelizmente é um pouco complicado fazer uma turnê nos EUA. 

B: Vocês descrevem o som como “música club contemporânea negra, na qual não é preciso desligar o cérebro”. Que tipo de escuta e reflexão você gostaria de provocar naqueles que mergulham no Som Sistema?

DC: É uma música física, que se ouve melhor em volume alto ou com bons fones de ouvido. Na melhor das hipóteses, surge uma irritação agradável ao encontrar uma música que ainda é relativamente inexplorada nessa constelação. É preciso uma certa abertura. Claro. Mas abertura e curiosidade são coisas que nunca devemos negligenciar, não só na música, mas em todas as situações da vida.

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