O cenário do rock nacional ganha um novo e ambicioso capítulo com a estreia oficial do KIAROSCURO, projeto autoral idealizado pelo músico e guitarrista Tiago Almeida. No próximo dia 19 de junho, chega às plataformas digitais, via Marã Música, o single de estreia “O Mundo Inteiro”, uma faixa que sintetiza a essência grandiosa do projeto ao fundir o rock progressivo, o peso e as atmosferas cinematográficas com a riqueza da música brasileira. Coroando este início de jornada, Tiago Almeida é o grande destaque de capa da Backstage Mag, edição número 86, consolidando o projeto como um dos lançamentos mais aguardados do ano.
Muito além de uma coleção de canções isoladas, o KIAROSCURO nasce sob uma forte narrativa conceitual. “O Mundo Inteiro” funciona como a porta de entrada para um universo denso, acompanhando a infância e a adolescência de um personagem central sob a perspectiva de seus pais. Musicalmente artesanal, a faixa transita entre a delicadeza acústica e explosões sonoras, tendo sido lapidada com a mixagem e masterização de Dennis Ward e a mentoria artística de ninguém menos que Kiko Loureiro. Para expandir essa experiência sensorial, o lançamento vem acompanhado de um potente visualizer distópico assinado pelo duo Molho Crocante.
Nesta entrevista exclusiva, Tiago Almeida abre o jogo sobre o meticuloso processo de composição que deu vida a essa ópera rock moderna. O músico detalha a criação de um universo que espelha as dores e as transformações da realidade latino-americana, comenta os desafios de equilibrar influências que vão de Pink Floyd e Porcupine Tree a Edu Falaschi e Papangu, e explica como a identidade visual e o estranhamento estético se tornaram pilares fundamentais para transformar o KIAROSCURO em uma experiência artística completa. Confira o bate-papo na íntegra a seguir:
KIAROSCURO nasce já com uma narrativa conceitual bastante definida. Como foi o processo de criar esse universo e por que contar essa história através da perspectiva de um personagem que acompanha diferentes fases da vida?
Sempre gostei muito de álbuns conceituais. Acho que foi o primeiro tipo de rock que realmente me capturou de uma forma mais profunda — não só pela música, mas pela possibilidade de construir um universo inteiro, com narrativa, símbolos, personagens, atmosfera e uma estética própria. Foi algo que me fez querer estudar mais a fundo não apenas guitarra ou composição, mas também a maneira como uma obra pode contar uma história do começo ao fim.
No caso do KIAROSCURO, o primeiro passo foi definir que cada álbum teria uma narrativa própria. Para este primeiro trabalho, eu quis partir de uma história muito próxima da minha realidade, mas que também é vivida por milhões de pessoas, principalmente na América Latina: a saída do interior, o deslocamento, a busca por pertencimento, a relação com as raízes, o impacto da cidade grande, da tecnologia, das expectativas e das mudanças de identidade ao longo da vida.
A partir dessa ideia central, começamos a construir a atmosfera do projeto. Houve um estudo grande de referências: sons, imagens, filmes, bandas, capas, texturas, cores, figurinos e sensações que poderiam se conectar com essa história. Fomos filtrando o que fazia sentido, descartando o que parecia distante demais e tentando encontrar uma linguagem própria para contar essa primeira fase do KIAROSCURO.

O personagem entra justamente para tornar essa narrativa mais humana e mais pessoal. Ele pode ser qualquer um de nós. Suas roupas, sua trajetória, seus conflitos e suas transformações ajudam a materializar sentimentos que, às vezes, seriam abstratos demais se fossem contados apenas de forma direta. Além de aproximar o ouvinte da obra, ele também ajuda no processo narrativo, funcionando quase como um fio condutor entre as músicas.
Eu sempre gostei muito de escrever canções baseadas em histórias. Muitas das minhas maiores referências fazem isso de formas diferentes: Pink Floyd, Porcupine Tree, Bruce Springsteen, Raul Seixas, entre tantos outros. Acho muito forte quando uma música consegue ir além de um momento isolado e passa a fazer parte de uma narrativa maior.
“O Mundo Inteiro” aborda temas como vulnerabilidade, pertencimento, proteção e esperança. Como essas reflexões dialogam com a sua própria trajetória artística e pessoal no momento em que o projeto está sendo apresentado ao público?
Eu escrevo canções há muitos anos e, nesse tempo, acabei compondo em fases muito diferentes da minha vida: quando ainda vivia no interior, quando me mudei para a cidade grande, quando comecei a ter contato com outras referências, outras pessoas, outros medos e outras ambições. Como compositor, é natural que todas essas vivências acabem aparecendo nas músicas de alguma forma.
Embora eu também escreva sobre temas que não vivi diretamente, percebo que as minhas canções mais fortes costumam nascer de experiências minhas ou de pessoas muito próximas da minha realidade. Existe algo muito verdadeiro nesse ponto de partida. O que tento fazer é pegar uma experiência pessoal, que nunca é totalmente individual, e observar como ela se repete ou se transforma na vida de outras pessoas.
“O Mundo Inteiro” fala muito sobre isso. É uma música sobre desejar que alguém tenha mais possibilidades, mais proteção, mais futuro. Mas também carrega uma vulnerabilidade muito grande, porque esse desejo muitas vezes nasce de quem sabe o que é não ter tantas oportunidades assim. Existe esperança, mas não uma esperança ingênua. É uma esperança atravessada por medo, afeto, desigualdade e pela vontade de que a próxima pessoa consiga ir mais longe sem perder o caminho de volta.
Acho que isso dialoga bastante com o momento em que o projeto está sendo apresentado ao público. O KIAROSCURO nasce de uma tentativa de transformar vivências pessoais em algo maior, em uma obra que possa conversar com outras pessoas que também se sentem deslocadas, divididas entre mundos, tentando entender de onde vieram e para onde estão indo.

A sonoridade da faixa mistura referências clássicas do rock progressivo com elementos da música brasileira e uma estética cinematográfica. Como você trabalhou esse equilíbrio para construir uma identidade própria sem perder essas influências tão marcantes?
Esse é um dos desafios sobre os quais eu penso praticamente todos os dias. Encontrar esse equilíbrio não é óbvio, e talvez por isso as músicas demorem tanto para ficar prontas. Não basta juntar partes diferentes apenas para soar “progressivo”. A música precisa ter uma razão emocional e narrativa para mudar, crescer ou incorporar outros elementos. Caso contrário, vira apenas uma colagem de referências.
Ao mesmo tempo, essa abordagem me dá bastante liberdade. Eu nunca senti que me encaixava perfeitamente em um subgênero específico do rock. Sempre parecia que havia algo um pouco deslocado: às vezes mais pesado, às vezes mais acústico, às vezes mais brasileiro, às vezes mais cinematográfico. Por muito tempo isso pareceu um problema, mas hoje vejo como parte da identidade do projeto.
O progressivo e o rock conceitual me dão uma licença poética para seguir a música para onde ela precisa ir. Se a canção pede uma atmosfera mais orquestral, um violão mais brasileiro, uma passagem mais pesada ou uma construção mais cinematográfica, eu tento deixar isso acontecer, desde que tudo esteja a serviço da narrativa.
Acho que sou mais generalista do que especialista nesse sentido. Não sou alguém que se aprofunda em um único gênero a ponto de tentar reproduzi-lo de maneira purista. Meu interesse maior está em compor, criar atmosferas e conectar referências diferentes em uma linguagem própria. Claro que isso traz desafios, porque o risco de soar fragmentado é grande. Mas também abre um espaço muito rico para criar.
No Brasil, felizmente, temos visto artistas trabalhando com essa liberdade de forma muito interessante. Penso em nomes como Edu Falaschi, que tem explorado narrativas, peso e elementos brasileiros dentro de uma estética grandiosa, e também o Papangu, que mistura progressivo, regionalidade e experimentalismo de uma forma muito própria. Isso mostra que existe um caminho fértil para um rock brasileiro que dialoga com referências internacionais, mas sem abrir mão da nossa identidade.

Além da música, o visualizer dirigido pelo Molho Crocante amplia a experiência do público com elementos de estranhamento, beleza e desconforto. Qual a importância da linguagem visual dentro do KIAROSCURO e como ela contribui para a compreensão da obra como um todo?
A linguagem visual é fundamental para o KIAROSCURO. Desde o início, a ideia nunca foi tratar a música como algo isolado. O projeto nasce como uma obra que envolve som, imagem, narrativa, personagem, símbolos e atmosfera. Tudo isso ajuda a construir o universo em que as músicas existem.
Hoje, vejo que muitos artistas têm apostado cada vez mais em experiências audiovisuais. Talvez isso tenha muito a ver com a forma como consumimos arte atualmente, principalmente através de telas. Mas, para mim, vai além de uma questão de formato ou divulgação. Eu realmente acredito que uma obra pode transportar o ouvinte para outro lugar, quase como um portal para uma outra realidade.
Isso vale tanto para quem escuta de fone, sozinho, quanto para quem assiste a um show. A experiência precisa ser coesa. Ela não precisa ser sempre confortável ou agradável — e, no caso de “O Mundo Inteiro”, existe mesmo essa intenção de misturar beleza com desconforto, acolhimento com estranhamento. Mas tudo precisa conversar com o conceito da obra.
O visualizer dirigido pelo Molho Crocante ajuda muito nesse sentido, porque amplia camadas que talvez não estivessem explícitas apenas na música. Ele traduz visualmente sensações de deslocamento, transformação, memória e tensão. Não é apenas um acompanhamento para a faixa; é uma extensão da narrativa.
Tenho muita vontade de levar essa linguagem também para os shows. Acho que quando começarmos a pensar em palco, luz, projeções e presença cênica, vai ser possível aprofundar ainda mais esse universo. Para mim, o KIAROSCURO é um projeto musical, mas também é uma experiência estética e narrativa. A imagem tem um papel essencial nisso.





























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