Multifacetada e dona de uma entrega cênica visceral, Bella Zafira une a sensibilidade das artes cênicas com o olhar atento de sua formação em Psicologia. Transitando com fluidez entre o teatro e o audiovisual, e carregando na bagagem a bagagem analítica da formação em Psicologia, ela transforma a curiosidade pela mente humana em combustível direto para a construção de papéis profundos, humanos e repletos de nuances.
Sua trajetória no audiovisual independente vem se consolidando de forma orgânica e potente, fruto de um talento que salta aos olhos de quem está atrás das câmeras. Após conquistar os espectadores como a apaixonante Adriana no especial de Natal da franquia “O que não falamos“, a química em cena e o carinho do público transformaram o que seria uma participação em um voo próprio, desdobrando-se em um spin-off inteiramente dedicado à sua personagem.
Hoje, a atriz celebra essa fase de plena maturidade artística ao protagonizar a minissérie “A Última Música“, disponível no YouTube da Bera Play. Sob a direção sensível de Mariana Berardinelli e à frente de uma narrativa sáfica necessária sobre vulnerabilidade, recomeços e afetos, Bella dá tom, garra e poesia a uma vocalista de rock intensa, honesta com os próprios sentimentos e pronta para se deixar transformar pelo amor.
Em entrevista exclusiva, ela reflete sobre o equilíbrio delicado entre a razão da psicologia e a entrega das artes cênicas, relembra a superação das inseguranças no início da carreira, e celebra a potência transformadora de contar histórias marcadas pela representatividade e pelo olhar feminino. Confira o bate papo:
Você transita entre o teatro, o audiovisual e ainda tem formação em Psicologia. Como essas diferentes áreas se cruzam na sua vida e de que forma a psicologia alimenta o seu processo de criação de personagem?
Uau, acho que de todas as formas! Eu sou muito grata por poder costurar e me aprofundar por essas áreas, pois me enriqueceu muito como profissional e ser humano. No início da atuação, a psicologia me atrapalhou um pouco porque eu saí da faculdade muito racional, muito “cabeçuda”, como dizia um professor. Depois, mais dentro das artes cênicas, os conhecimentos foram se diluindo e hoje eu acho que se equilibra bem e me ajuda nas construções de camadas das minhas personagens e da obra como um todo. O ser humano me fascina, eu acho fantástico como somos tão plurais e ao mesmo tempo tão iguais, e a nossa capacidade de fazer coisas extraordinárias a partir das nossas histórias.

E agora você acabou de estrear com “A Última Música”. Como está sendo ver o retorno do público? E como é o sentimento de ver esse projeto no ar?
Estrear um trabalho é sempre uma forte emoção (risos). Eu não consegui ter acesso a nada da pós produção pois estava trabalhando muito, então foi uma surpresa total, mas quando saiu e os feedbacks começaram a surgir eu fiquei muito feliz com o carinho do público e, principalmente, com o carinho direcionado a Adriana. Já recebi muitas mensagens falando da personalidade da personagem e de como as questões delas movimentam histórias parecidas.
Posso dizer que eu estou muito orgulhosa do trabalho que entregamos. Se vocês repararem na ficha técnica verão uma lista de afazeres gigantes e apenas sete nomes (já contando o elenco). Pra quem trabalha no audiovisual sabe o quão isso é pouco e, mesmo assim, fizemos um trabalho extremamente bonito.
Sua escalação para “A Última Música” veio por convite direto da diretora Mariana Berardinelli após uma indicação da cineasta Lela Gomes, sem necessidade de testes. Qual foi o sentimento ao ver seu trabalho no audiovisual independente sendo reconhecido dessa forma?
Eu ainda fico sem palavras com a generosidade tanto da Lela Gomes, quanto da Mariana Berardinelli. Quando recebi o convite para interpretar a Adriana fiquei muito feliz, quando soube que era por uma indicação da Lela, quase não acreditei (risos). O meu primeiro teste da vida foi pra interpretar Tatiana/Mariana no spinoff NINA com a Lela Gomes. Também não acreditei quando recebi o “você passou”. Como foi meu primeiro trabalho eu saí extremamente insegura e sem saber se o que eu havia entregue tinha sido um bom trabalho, se tinha me comportado bem e todas essas inseguranças que nos acompanham. Mas receber essa indicação foi um carinho no coração e uma luz de que estava em um bom caminho. Sou muito grata a elas por acreditarem em mim e na minha arte.

Você comentou que ficou radiante com o convite, mas também relembrou as inseguranças que sentia quando começou em “NINA”. Se você pudesse voltar no tempo, que conselho daria para a Bella daquela época?
“Calma, garota. Nós nunca estaremos prontas pra nada!”. Se tem uma coisa que a arte me ensinou foi a acolher com todo carinho meus erros, falhas e inseguranças. No início eu era a pessoa que não queria errar, me julgava em tudo e não aceitava o processo de construção. Toda atriz mais experiente sabe que esse é exatamente o caminho que não leva a lugar algum. Eu tinha a ideia de “estar pronta” e um medo irreal dos julgamentos alheios, mas aprendi na pele que isso é apenas uma forma de sabotar os próprios movimentos. Ninguém nunca está totalmente pronto pra nada e que bom. É justamente nesses brancos de si, na falta, que a possibilidade do encontro com o novo, de se surpreender consigo mesmo e na relação com o outro que nós evoluímos. Eu aprendi tanto no set de NINA, observava tudo e todos, queria absorver tudo que dava daqueles profissionais. Isso foi imensurável! E hoje essas experiências me compõe e me acompanham por todos os espaços que tenho a honra de ocupar.
Como foi a transição de fazer uma participação no especial de Natal de “O que não falamos” para ganhar um spin-off próprio focado na sua personagem e na da Mafe Siqueira?
Já falei que sou uma grande sortuda? Foi incrível de diversas formas. Primeiro porque fiquei feliz com a adesão do público com o casal. Eu entrei no meio de uma história que o público gostava e torcia pelo casal Luciana e Fabiana, o que colocou uma camada de complexidade e delicadeza na construção da Adriana que, bom… Deu certo. E segundo que “A última Música” conta o início da relação das personagens mas a história começou pelo fim, com “O que não falamos”, ou seja, eu tive que pensar um antes diferente – até pelo roteiro – e descobrir o crescimento da Adriana dentro dessa relação. Foi uma retrospectiva imaginária muito interessante, desafiadora, que me permitiu brincar com a idéia do amadurecimento da Adriana durante esses anos de relação com a Fabiana.
Entrando na série, a Adriana é uma vocalista de rock que transita entre a expansão dos palcos e a vulnerabilidade dos afetos. Qual foi o seu ponto de partida para encontrar o ritmo interno e a energia de uma cantora? Você chegou a criar uma playlist pessoal para a personagem durante a preparação? Se sim, o que tocava nela?
Sim! Todas as minhas personagens tem uma playlist. Eu sou cheia de álbuns no spotify com o nome de todas as personagens que já vivi. A música me ajuda a sentir e a rechear o universo simbólico das personagens e com a Adriana não foi diferente. De System Of a Down à Pitty, de AC/DC à Alanis Morissette, todo esse universo me ajudou a compor um interior mais robusto e que pudesse transitar entre algo mais agitado e sensível da Adriana. Na minha construção eu quis trabalhar a disposição de se estar vulnerável para o amor nas cenas, o que diferenciava da energia da Adriana artista que precisa contagiar uma multidão. Essa expansão toda não aparece muito nessa história, mas faz parte dessa camada ambígua que construí pra ela. Acho que o que há de mais belo na vida é justamente essas contradições que nos fazem ocupar lugares tão diferentes e potentes. Sinto que a força que uma pessoa precisa para contagiar uma multidão é quase a mesma para se colocar vulnerável numa relação de amor.

A Adriana é descrita como alguém muito honesta com o que sente e que sabe a hora de ir embora. O quanto você se identifica com essa postura de vida da personagem?
Hoje em dia eu posso dizer que sim, mas por um tempo eu não sabia muito bem quais eram os meus limites pro amor. Aceitava lugares e comportamentos que me faziam muito mal, não sabia identificar o que me afetava,tão pouco comunicar ao outro, ou simplesmente ir embora. Mas hoje em dia eu me sinto outra pessoa e isso me deixa muito orgulhosa. Estabelecer limites, saber que só o amor não é suficiente pra nada e, principalmente, saber o que se deseja de uma relação transformaram meu modo de ser na vida, como um todo. É um caminho por vezes dolorido entrar em contato com essas nossas inseguranças, são dores quase infantis, difíceis de lidar, mas sem dúvida é muito mais custoso não encará-las de frente e se posicionar.
Às vezes o medo de perder nos impede de ganhar muitas outras coisas.
O projeto conta com direção feminina e uma equipe reduzida. Na sua visão, qual a importância de contar histórias sáficas sob o olhar e a escrita de realizadoras mulheres por trás das câmeras?
No audiovisual as produções são majoritariamente masculinas devido às estruturas de poder. Muitas mulheres e/ou formas de ser mulher tiveram anos de existências apagadas e quando falamos das narrativas LGBTQIAPN+ as estatísticas só pioram. Contar histórias de amor entre mulheres, escrita por mulheres, na minha visão é revolucionário. Hoje presenciamos ao vivo o movimento no Afeganistão onde as mulheres não podem nem falar nos lugares públicos e de como essas ideias têm flertado com os movimentos conservadores do nosso país onde já se discute se as mulheres deveriam ou não ter direito ao voto. Acho isso tão absurdo que me enche de gás para estar em mais e mais projetos assinados por mulheres e para as mulheres do meu país.
Sem contar que eu fui uma adolescente que se descobriu bissexual sem nenhuma referência desse amor. Penso que se fosse algo tão acessível como é hoje em dia, talvez fosse mais tranquilo e natural passar por esse processo. Quando recebo mensagens de adolescentes se identificando com a história isso me enche de orgulho e acalenta meu coração com a possibilidade de ser uma referência para um amor sem preconceitos.
Você mencionou que este trabalho foi um divisor de águas e que você sentiu o prazer na atuação superar o nervosismo diante das câmeras. O que muda na sua maturidade artística a partir desse marco?
Olha, eu tenho plena consciência de que vou morrer estudando e evoluindo na minha profissão, mas sinto que esse último trabalho me possibilitou um espaço tão seguro com a equipe que me ajudou nesse amadurecimento de poder relaxar e explorar mais o meu olhar, meu corpo e principalmente a troca com a minha companheira de cena Mafe Siqueira. Tudo acontece na relação, no entre, e estar relaxada e aberta a isso é onde a mágica acontece. Que eu siga evoluindo sempre!






























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