D$ Luqi: entre traumas, liberdade e a busca por novos mundos
Da Baixada Fluminense para um universo musical que não aceita fronteiras, D$ Luqi, que estampa hoje a nova capa digital da Backstage Mag, construiu uma trajetória marcada pela independência, pela experimentação e, sobretudo, pela disposição de transformar experiências pessoais em arte. Nascido e criado em Duque de Caxias, o artista cresceu em um contexto em que o acesso à cultura e à educação era limitado, mas encontrou nos estudos uma possibilidade de ampliar sua visão de mundo. Formado em Letras e com passagem pela sala de aula, ele descobriu na linguagem uma ferramenta capaz de criar novos universos, primeiro por meio dos livros, depois pelas próprias músicas.
A relação com a música começou ainda na adolescência, quando Luqi ganhou da mãe uma guitarra e formou uma banda de garagem com amigos. Na época, suas referências estavam principalmente no rock, no metal alternativo e em sonoridades mais pesadas. O contato com artistas que transitavam entre rock e rap abriu uma nova possibilidade de expressão e, anos depois, o rap se tornou o território onde conseguiu unir palavra, ritmo e experiências. Em 2019, nasceu oficialmente o nome D$ Luqi, inspirado no coletivo Death $quad e no apelido Luke, consolidando uma identidade artística que, segundo ele, nunca esteve distante do próprio Lucas.
A independência também se tornou parte fundamental dessa trajetória. Depois de anos produzindo e publicando músicas na internet, Luqi começou a alcançar um público maior e percebeu que poderia transformar a arte em profissão. A repercussão nacional de seu trabalho na internet, incluindo sua participação no Flow Podcast, foi um dos momentos em que entendeu que havia pessoas interessadas não apenas no artista, mas no ser humano por trás dele. Essa conexão ajudou a impulsionar músicas como “Chamyto Freestyle” e “Chamyto Freestyle 2”, que ganharam força de maneira orgânica nas plataformas e nas redes sociais, sem depender de grandes investimentos em divulgação.
Em “UOTOTOGOKA”, Luqi levou essa proposta ainda mais longe. O projeto mergulha em questões pessoais, traumas, memórias, família, emoções e reflexões sobre a própria existência, deixando de lado parte da armadura que costuma acompanhar a figura do artista. Para ele, a vulnerabilidade é justamente uma das formas mais potentes de conexão. Ao mesmo tempo em que rejeita a ideia de se prender a um único gênero, D`$ Luqi reafirma sua identidade como rapper experimental, interessado em testar caminhos e incorporar novas referências.
Entre o garoto da Baixada, o estudante de Letras, o professor, o artista independente e o homem que aprendeu a lidar com a fama, existe uma constante: a necessidade de transformar aquilo que vive em algo que possa ser compartilhado. Confira uma entrevista completa com o artista:
Antes de existir o D`$ Luqi, quem era o Lucas?
Eu era uma criança muito parecida com qualquer outra criança da Baixada Fluminense. Cresci em um lugar com acesso limitado à cultura e à educação, mas meus pais se esforçaram muito para me dar oportunidades. Acho que os traumas e os problemas que vivi acabaram formando muito do artista que sou hoje. A arte se tornou o lugar onde encontrei espaço para ser vulnerável, falar sobre coisas que normalmente não falaria e expor sentimentos.

Em que momento a música entrou de verdade na sua vida?
Foi na adolescência, entre 14 e 15 anos. Minha mãe comprou uma guitarra para mim e formei uma banda de garagem com meus amigos. Eu era muito ligado em rock e metal alternativo, tocava guitarra e fazia segundo vocal. Foi ali que comecei a entender a música como uma forma de expressão. Anos depois, o rap me mostrou que eu poderia fazer isso também por meio das palavras.
Você é formado em Letras e também trabalhou como professor. O que essa trajetória acrescentou ao artista?
A faculdade mudou completamente minha visão de mundo. Eu praticamente não lia antes de entrar em Letras e foi ali que descobri que poderia criar novos mundos por meio da linguagem. Muita gente pensa que fiz o curso e não usei o diploma, mas eu vejo exatamente o contrário: se eu não tivesse estudado Letras, provavelmente não seria o rapper que sou hoje.
Quando nasceu o D$ Luqi e de onde veio esse nome artístico?
O D$ Luqi nasceu em 2019, embora eu já fizesse músicas desde 2017. O “D$” vem do coletivo Death $quad, que criei com Massaru e MAIK. Eu era muito ligado ao coletivo e coloquei a sigla no meu próprio nome. O “Luqi” vem de Luke, um apelido relacionado ao meu nome, Lucas. E o D$ Luqi é muito próximo de quem eu sou. É o Lucas em forma de arte, com a carapaça aberta.
Você construiu uma trajetória independente e ganhou espaço no underground. O que fez você continuar?
A identificação com o público. Em determinado momento percebi que as pessoas queriam saber o que eu pensava e ouvir o que eu produzia. Foi quando entendi que poderia viver da música. Essa conexão continua sendo o que me mantém motivado: saber que alguém consegue ouvir uma música minha e pensar que aquilo também representa o que sente.

Quando percebeu que seu trabalho havia ultrapassado sua bolha?
Foi quando comecei a ganhar uma projeção nacional por causa do trabalho que eu fazia na internet e participei do Flow Podcast. Ali percebi que as pessoas estavam interessadas no Lucas e queriam saber o que eu estava produzindo. Foi quando pensei: “Eu acho que posso viver disso”.
Como você define sua identidade musical?
Eu me vejo como rapper, mas não gosto de me prender a gênero. Para mim, isso seria uma limitação. Sou um artista experimental. Quando descubro uma sonoridade nova que acho interessante, quero experimentar e descobrir se aquilo combina comigo. Gosto quando artistas saem da zona de conforto e misturam gêneros.
Como você recebeu a repercussão de “Chamyto Freestyle” e “Chamyto Freestyle 2”?
Foi muito legal porque aconteceu de forma orgânica. Eu nunca coloquei dinheiro para impulsionar essas músicas. Foi o público que gostou e levou para frente. Isso dá uma esperança enorme para o artista independente, porque mostra que, a qualquer momento, uma música pode furar a bolha e alcançar muito mais gente.
O quanto existe de autobiográfico nas suas letras?
Praticamente tudo. As experiências são coisas que vivi, senti ou presenciei. O que muda é a forma como escolho contar. Posso usar primeira ou terceira pessoa, mudar a perspectiva ou transformar uma experiência passiva em algo ativo. Mas gosto de falar sobre coisas que realmente experimentei, porque isso torna o sentimento muito mais palpável.
O que “UOTOTOGOKA” representa dentro da sua trajetória?
Eu sempre falei muito sobre mim, mas queria fazer algo mais complexo e profundo. Em “UOTOTOGOKA”, tentei falar de maneira mais direta sobre alguns problemas e questões que penso sobre a vida. Acho que o diferencial está justamente em mostrar um eu abatido, problemático e defeituoso. No rap, muitas vezes existe uma necessidade de mostrar força, vitória e poder. Eu quis mostrar o contrário: a vulnerabilidade.
Depois de tudo o que viveu, qual foi a maior transformação do Lucas e do D$ Luqi?
A maior lição foi entender que a fama não vale a pena. Eu não gosto de ser famoso; gosto de ser tratado como uma pessoa normal. A fama muitas vezes desumaniza o artista. Ao mesmo tempo, não posso ser hipócrita e dizer que o dinheiro não é importante, porque é ele que me permite continuar fazendo o que amo. Então existe esse paradoxo: preciso de visibilidade para ser independente, mas não gosto do preço que a fama cobra.
Se pudesse conversar com o garoto que você foi, o que diria? E o que ainda quer conquistar?
Eu teria uma conversa muito profunda com ele. Talvez tentasse mostrar tudo o que aprendi e planejar melhor algumas coisas. Mas existe um paradoxo nisso, porque o Lucas de amanhã provavelmente teria outra visão e mudaria tudo novamente. Minha série preferida é “Dark”, então penso muito nessa questão do tempo e das escolhas. No fim, talvez seja melhor não poder voltar. O que quero é continuar evoluindo, fazer coisas que me deem orgulho e deixar um legado através da minha arte.






























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