Quentin Lewis na Backstage Mag | Ed. 82

Quentin Lewis estampa a nova capa digital da Backstage Mag, edição 82, trazendo os bastidores de sua mais nova e ambiciosa produção: a série de ficção científica “Caesar – The Ides of March”, uma releitura de “Júlio César“, de William Shakespeare. Em um ano onde o audiovisual é dominado pela velocidade da Inteligência Artificial, o diretor do Canal Demais subverte a lógica da indústria ao erguer manualmente cada pilar de sua Roma distópica deste projeto. Utilizando a Unreal Engine não como um atalho, mas como um pincel digital, Lewis reafirma que o valor da obra reside no “detalhismo obsessivo” e na sensibilidade que só o toque humano consegue imprimir em cada fóton de luz.

Nesta entrevista exclusiva, ele mergulha no processo criativo de transpor o clássico de Shakespeare para um futuro onírico, onde a liberdade do ambiente virtual permite “mover o sol” para alcançar a estética perfeita. Quentin explica que, embora a IA possa gerar imagens impecáveis, ele escolhe o caminho artesanal pelo puro prazer da construção. Para ele, dirigir atores e compor roteiros em cenários digitais infinitos não é sobre eficiência técnica, mas sobre a necessidade interna de dar forma visível a ideias que antes só existiam em sua imaginação.

A conversa avança para uma reflexão profunda sobre o futuro da criação independente frente à automação global. Autor do livro “Liberation Theology 2.0”, Lewis discute como a humanidade caminha para um cenário onde o que fazemos não será mais definido pelo status ou retorno financeiro, mas pelo amor ao processo. Ele encara sua série – indicada em festivais internacionais como o LA Webfest – como um microcosmo desse novo mundo: um projeto que não busca competir com a perfeição sintética das máquinas, mas celebrar a vivência única de criar cena a cena.

Ao final, fica claro que “Caesar” é mais do que uma série sci-fi, é um manifesto sobre a identidade do artista no século XXI. Quentin Lewis demonstra que, mesmo com as ferramentas mais avançadas de tempo real à disposição, o coração da narrativa continua sendo o gesto humano, a falha proposital e a visão autoral. É um convite para apreciarmos o cinema não apenas como um produto de consumo rápido, mas como uma obra de arte esculpida com cuidado, tempo e alma.

Confira agora a entrevista completa com o diretor:

O que fez você escolher a história de Júlio César para transformar em uma série de ficção científica em 2026?

Eu acredito que a arte e a cultura têm uma relação circular com a sociedade e a política. A nossa vida social e as tendências políticas acabam se refletindo, de forma consciente e inconsciente, no processo criativo que dá origem à arte e à cultura em geral.

Estamos vivendo um momento de questionamento global das instituições democráticas. Às vezes, parece que a chama do Iluminismo, que começou nos séculos XVII e XVIII, está tremulando diante de ventos de intolerância e ignorância.

A história de Júlio César, em que um homem coloca seu amor pela democracia e pela república acima do amor por um amigo, é uma narrativa muito atual. É triste perceber que uma história que parecia tão clara e evidente no século XVI precise ser contada novamente hoje.

Em um ano onde quase tudo no audiovisual usa IA para ganhar velocidade, por que você fez questão de construir cada pilar e cada luz da série manualmente? O que o “toque humano” traz que o algoritmo não consegue entregar?

Eu acredito que a IA pode fazer esse trabalho extremamente bem. Acho a tecnologia fascinante – e, sendo honesto, muitos dos meus projetos talvez ficassem mais realistas ou até mais “perfeitos” se fossem inteiramente feitos com IA.

Mas, ainda assim, eu amo fazer cinema. Gosto de iluminar uma cena, de pensar o enquadramento, de construir cada imagem com as próprias mãos. Quando a fotografia foi inventada, isso não fez com que os artistas deixassem de pintar retratos ou paisagens. Muitas vezes, uma câmera de alta resolução pode capturar uma pessoa ou um cenário com mais precisão – mas o pintor continua pintando porque ama misturar as tintas, criar sombras, inventar a luz.

Existe um prazer no processo. Na transformação de uma tela em branco em algo que carrega significado, emoção, uma visão muito pessoal do mundo – algo que pode, de alguma forma, alcançar o outro.

É isso que me move. Eu amo o ato de criar. Não faço isso por dinheiro, nem necessariamente para ser visto. Faço porque existe uma necessidade interna de construir algo, de dar forma a uma ideia, de tornar visível aquilo que antes só existia dentro de mim.

No ambiente virtual, você diz que pode “mover o sol” para alcançar a luz perfeita. Ter esse nível de controle absoluto sobre cada fóton e movimento de câmera altera a forma como você dirige os atores ou pensa o roteiro, em comparação com um set físico tradicional?

Antes de trabalhar com ambientes virtuais como cenário para contar histórias, eu acabava limitando meus roteiros aos lugares e ao orçamento disponíveis. Pensava nas histórias que eram possíveis de realizar dentro dessas restrições.

Com a possibilidade de colocar atores em qualquer ambiente virtual, esse limite praticamente desaparece – as possibilidades se tornam quase infinitas. Isso me desafia a ir cada vez mais longe, a pensar fora do óbvio, a criar espaços impossíveis que expandem a imaginação e constroem paisagens quase oníricas.

Gosto da ideia de desenvolver uma estética própria que não seja apenas decorativa, mas que realmente potencialize a narrativa – que ajude a revelar camadas, aprofundar sentidos e contribuir de forma orgânica para o significado do que está sendo contado.

Vivemos em uma indústria que exige produções cada vez mais rápidas e baratas. Qual é o maior desafio de ser um criador independente que escolhe o caminho do “detalhismo obsessivo” e da curva de aprendizado íngreme em vez de ceder às facilidades da automação por IA?

Como eu disse antes, encaro essa forma de produção como uma prática artística que me dá satisfação pessoal. Tento não me preocupar se o trabalho vai ser visto ou se vai agradar alguém. Tenho plena consciência das limitações dessas criações quando comparadas ao que o grande público consome e aprecia hoje. Ainda assim, existe algo que me atrai profundamente no “detalhismo obsessivo”, nesse cuidado quase artesanal com cada elemento – mesmo sabendo que dificilmente isso será “rentável”.

A IA é extraordinária. É muito mais barata do que construir cenários reais ou mesmo recorrer ao CGI tradicional. Muitas vezes, o resultado é mais convincente, mais rápido e tende a ficar cada vez mais acessível. Não tenho dúvida de que a maior parte dos estúdios vai adotar essa tecnologia. E também acredito que ela vai tornar mais difícil ganhar dinheiro com CGI, VFX ou produção virtual como conhecemos hoje – além de impactar diretamente o trabalho de operadores de câmera, diretores e atores. Em uma escala mais ampla, a IA tende a substituir trabalhadores em diversos setores, num ritmo crescente.

Mas isso não significa o fim da criação. Ainda podemos fazer a arte que queremos, do jeito que queremos. O que muda é a forma de encarar tudo isso. Em vez de competir com a IA, talvez o caminho seja outro: continuar fazendo aquilo que nos dá prazer, aquilo que nos move de verdade.

No ano passado, publiquei um livro chamado “Liberation Theology 2.0” (atualmente em tradução para o português), em que discuto um futuro muito próximo no qual a maioria dos trabalhos será substituída por uma AGI. É uma reflexão sobre como a humanidade pode se preparar para um mundo em que as pessoas não serão mais definidas pelo que fazem profissionalmente ou pelos símbolos de status que exibem, mas sim pelo que amam fazer. Um mundo de abundância econômica, em que as necessidades básicas são atendidas graças ao enorme salto de produtividade trazido pela AGI.

De certa forma, a minha decisão de continuar criando de forma manual, dentro de uma indústria que avança rapidamente em direção à automação, é um pequeno reflexo – um microcosmo – daquilo que proponho neste livro.

A série já está sendo reconhecida em festivais internacionais (como o LA Webfest). Como você se sente vendo um trabalho tão artesanal e independente ganhando esse destaque em meio a tantas produções automatizadas?

Eu me sinto muito feliz, claro – mas talvez por um motivo um pouco diferente do que se espera. Eu não vejo esse trabalho como uma resistência à automação, nem como algo “melhor” por ser artesanal. Na verdade, eu acredito que o cinema feito com IA pode, em muitos casos, ser até mais sofisticado, mais realista, até mais poderoso em certos aspectos.

O ponto, para mim, é outro. Eu continuo fazendo filmes dessa forma porque gosto do processo. Porque criar – construir cena a cena, ajustar, errar, refazer – é uma experiência em si. É como um pintor que ainda escolhe pintar mesmo podendo tirar uma fotografia perfeita. Não é sobre eficiência, é sobre vivência.

A arte, para mim, não é só o resultado final. É o ato de fazer. É uma das formas mais profundas que temos de existir, de pensar, de sentir. E isso não desaparece só porque agora podemos gerar algo com um prompt.

Então ver a série sendo reconhecida é bonito, não porque ela “vence” a tecnologia, mas porque mostra que ainda há espaço – e talvez sempre haverá – para quem quer criar não apenas pelo resultado, mas pelo próprio processo.

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